Arquivos Diários: Maio 17th, 2008

“A operação conhecida como hemisferectomia – a remoção de metade do cérebro – parece radical até para ser cogitada, quanto mais pra ser realizada. No último século, porém, cirurgiões a realizaram centenas de vezes, por doenças que não podiam ser controladas de outra maneira. Talvez surpreendentemente, o procedimento parece não ter qualquer efeito sobre a personalidade ou a memória. Isso quer dizer que uma pessoa só precisa de metade do cérebro? Sim e não. As pessoas podem sobreviver e funcionar muito bem após a intervenção, mas terão algumas deficiências físicas.

A primeira hemisferectomia registrada foi feita em um cão, em 1888, pelo fisiologista alemão Friedrich Goltz. O neurocirurgião Walter Dandy foi o pioneiro na operação em humanos, em 1923, na Johns Hopkins University, Estados Unidos, com um paciente que tinha um tumor cerebral. (A pessoa sobreviveu por mais ou menos três anos, antes de sucumbir ao câncer.)

Em 1938, depois de realizar uma hemisferectomia em uma jovem de 16 anos, o neurocirurgião canadense Kenneth McKenzie relatou que a operação podia interromper convulsões debilitantes. Hoje, cirurgiões cerebrais fazem hemisferectomias em pacientes que têm dezenas de convulsões diárias, resistentes a toda medicação e decorrentes de condições que afligem essencialmente um só hemisfério. ‘Essas doenças são geralmente progressivas e danificam o resto do cérebro se não forem tratadas’, argumenta o neurocirurgião Gary W. Mathern, da University of California em Los Angeles (Ucla).

A cirurgia tem duas formas possíveis. Hemisferectomias anatômicas envolvem a remoção de um hemisfério inteiro, enquanto hemisferectomias funcionais retiram apenas parte de um deles – além de seccionar o corpo caloso, o feixe de fibras que conecta as duas metades do cérebro. A cavidade esvaziada é deixada assim, e acaba sendo preenchida por fluido cérebro-espinhal com o tempo.

Em geral os médicos preferem hemisferectomias anatômicas, porque ‘deixar mesmo que um pouco de cérebro pode fazer com que as convulsões retornem’, diz o neurologista John Freeman, da Johns Hopkins University, local especializado nesse procedimento. Por outro lado, as hemisferectomias funcionais, que os cirurgiões da UCLA preferem, resultam em menos hemorragia. ‘Nossos pacientes costumar ter menos de 2 anos de idade, de modo que têm pouco sangue a perder’, diz Mathern. Os neurocirurgiões já realizaram a operação funcional até me crianças com apenas 3 meses de idade. Nesses pequenos pacientes a memória e a personalidade se desenvolvem normalmente. A maioria dos pacientes de hemisferectomia da Johns Hopkins tem mais de 5 anos. Um estudo recente mostrou que 86% das 111 crianças que passaram pelo procedimento entre 1975 e 2001 estão livres das convulsões ou apresentam convulsões não incapacitantes, que dispensam medicamentos. Outro estudo verificou que crianças que passaram por uma hemisferectomia freqüentemente melhoraram o desempenho escolar após o fim das convulsões. ‘Uma foi campeã de boliche de sua classe, outro, campeão de xadrez do estado, e outros já estão na faculdade, indo muito bem’, afirma Freeman.

Mas dá para dançar?

Evidentemente, a remoção de metade do cérebro tem seus efeitos negativos – como uma perda de função em um lado do corpo. ‘Dá para caminhar, correr – até dançar -, mas perde-se o controle da mão do lado oposto ao hemisfério retirado’, diz Freeman. A visão também fica prejudicada.

Além disso, se o lado esquerdo do cérebro for o removido, a maior parte dos pacientes ficam com problemas na fala. Mas, quanto mais jovem é uma pessoa quando passa pela hemisferectomia, menor a deficiência de linguagem que provavelmente apresentará.

Mathern e seus colaboradores fizeram recentemente o primeiro estudo de ressonância magnética funcional em pacientes de hemisferectomia, para investigar como o cérebro deles se modifica ao longo da reabilitação física. Verificar como o hemisfério cerebral restante desses pacientes adquire funções motoras, sensoriais, de linguagem e outras ‘poderia lançar bastante luz sobre a plasticidade do cérebro, isto é, sua habilidade de modificar-se’, observa Freeman. Ainda assim, diz, a hemisferectomia está entre os tipos mais drásticos de cirurgia cerebral e é ‘algo que só se faz quando as alternativas são piores’.”

(Charles Q. Choi – Scientific American Brasil, abril 2008 )

E agora está provado que eu e Ami podemos SIM dividir um cérebro! HUAuhahuauhauhauhahuauhauhauh!!!!!!

See you, Space Cowboy.